Primeira incorporação no Terreiro

A primeira incorporação de um médium na Umbanda é algo cercado de dúvidas, mistérios e revelações.

Alvo de conversas e trocas de experiências, o tema está longe de ter uma cartilha sobre como e quando deve ocorrer. Isso faz com que a curiosidade aumente, principalmente para os novatos.

Assim, abaixo reproduzimos o relato de Daniel Marques, cofundador dos canais Umbanda Eu Curto sobre a sua primeira incorporação.

A imagem que ilustra este depoimento é da página Varal Cultural e foi feita durante o 8º Festival de Curimba “Um Grito de Liberdade”, evento criado pelo nosso colaborador Engels de Xangô.

Acompanhe!


Minha primeira incorporação? Impossível esquecer…

Durante muito tempo ficava travado, esperando que uma energia se apoderasse da minha consciência.

Ouvia o som do atabaque, o cheiro característico de Terreiro e os Guias incorporados nos outros irmãos e irmãs e me questionava: “Quando será comigo?”

Até que em determinada Gira lá estava eu mandando ver no atabaque, no que eu já tinha me acostumado a chamar de “meu transe pessoal” e então meu coração disparou.

Neste momento a minha Mãe de Santo, incorporada pelo Pai Caboclo Pena Branca me chamou na frente do congá e pediu para eu fechar meus olhos.

Lembro como se fosse agora! O Ponto que estava sendo tocado era:

“Portão da Aldeia abriu, para os Caboclos passar…”

E o barravento começou.

Senti meu corpo se inflando (e eu, médium, ser humano consciente, continuava ali)!

Meus braços começara a arrepiar (e eu continuava ali).

Meu rosto ficou firme (e, de novo, eu continuava ali).

Minha respiração ficou ofegante (adivinhem, eu continuava ali).

Então, de repente, me ajoelhei. Meu punho bateu no centro do peito e como uma libertação eu e Ele bradamos…

Ecoou no terreiro inteiro (pelo menos essa foi a minha impressão), como se nós dois tivéssemos nos encontrado depois de muito tempo.

Engraçado que eu continuava ali e Ele, Caboclo Sete Flechas estava presente também, numa simbiose ainda estranha, mas muito gratificante.

Me sentia índio, e naquele momento eu era realmente índio como meu Pai.

Eu e Ele em comunhão com o que é sagrado, inevitavelmente juntos.

Nossos corações se uniram e eu, consciente, percebi: “Incorporei!”

Não sei ao certo quanto tempo durou, mas perdurou na minha alma até hoje.

E assim foi o dia em que eu me reencontrei na liberdade do brado meu querido Pai, Amigo, Mestre, Guia e Mentor, o Sr. Caboclo Sete Flechas!

Assim foi a minha primeira incorporação no Terreiro.

Okê Caboclo!