Olhos de Criança: você se lembra deles?

Olhos de criança, onde estão os seus?

Acompanhe!

O mundo fechou seus olhos de criança…

Morreu a pureza e a inocência
Do coração infantil que vive a cantar.
Não mais o espírito há de celebrar…

Confunde-se experiência com mera repetição de erros.
Ah, o sofrimento é tão valorizado,
Nunca o aprendizado…

O mundo fechou seus olhos de criança…

Aquele olhar que se extasia com tudo,
que a todo momento vê um milagre.
Não existe mais poesia e brincadeira,
Nem mesmo engraçadas infantilidades.
E eles se dizem tão adultos…

Sim, será que virar adulto é deixar de ser criança?
Mas que experiência de vida é essa,
Se o tempo passa e os olhos brilham menos,
O sorriso deixa de aparecer no rosto,
Substituído por olhares e rugas de rancor.

O mundo fechou seus olhos de criança…

Esse envelhecimento tolo,
Essa suposta maturidade,
Que acaba com toda novidade.

Essa que te afasta tanto do Todo.
Não mais gotinha do oceano universo.
Simples gotinha, que não mais sabe viajar no verso…

Quando você era pequeno, existia um milagre constante. Seus olhos, curiosos, se mexiam agitados, como asas de borboleta a provocarem ventanias em um fim de tarde. Eles viam tudo e se extasiavam. Cada pôr do sol, cada palavra, cada passo, cada gesto. Um milagre! Um doce! Você era tão feliz…

Sem medos e inseguranças… Sem máscaras. Se quisesse chorar, chorava. Se quisesse cantar, cantava! Não existia sociedade, nem leis e preocupações. Não existia uma moral tola, de hipócritas, gente infeliz que tenta te imprimir a mesma infelicidade. Não existiam traumas. O mundo era povoado de seres fantásticos.

Sua imaginação era um pincel mental. Capaz de criar e dançar, dançar e criar. Poesia, correria, brincadeira e gritaria… O mundo coloria-se com cores inimagináveis. Os adultos não te compreendiam, pois o mundo deles é tão preto-e-branco! A única coisa que dá cor à vida é a imaginação. Mas, os adultos esqueceram disso… A imaginação se foi!

Com ela morreu também o sonho e a festa. Vieram os primeiros traumas, as primeiras infelicidades. Depois vieram as projeções e vontades de seus pais. Vontades essas que não eram suas. Vieram os problemas, a lógica, a tal da responsabilidade. Ensinaram-te a ser forte, inflexível em suas posturas. Que o importante é ganhar, não participar.

Foram-se os olhos de criança…

Incutiram valores de honra, caráter, moral e ética em seu ser. Você se tornou uma placa de aço. Forte, muito forte… O mundo inteiro ensina os outros a serem fortes como o aço. Inflexíveis como o aço. Mortos e tristes como o aço…

Você já viu uma placa de aço sorrir? E desabrochar? Já sentiu calor a emanar dela?

Sim, isso é uma pena. Todos te ensinaram a ser fortes, mas não como uma rosa, mas sim como uma pedra.

Lembra do seu primeiro amor? Ele era cheio de encanto e poesia, cheio de abraços e beijos apaixonados! Tão diferente desse milésimo relacionamento tolo, que apenas esconde sua dependência emocional…

Lembra quando você pensava no que seria quando crescesse? Era uma projeção sua, pura, íntima, não contaminada pelos tolos valores sociais. Mas o médico, o jogador de futebol, o veterinário, o poeta, o dançarino, o músico, todos eles morreram. Restou apenas um singelo reflexo…

Lembra de seus amigos? Onde estão eles?

Esses a quem vocês juraram fidelidade infinita. Esses com quem você muito aprendeu, esses com quem você passou os melhores momentos de sua vida!

Perderam-se, não existe mais tempo para passear ou se divertir. “Estamos com tantas responsabilidades e obrigações”…

Lembra da felicidade? Sim, essa que deveria ser a grande bússola da sua vida. Que deveria ser o seu bem mais precioso. Sua joia mais cuidada. Essa mesma, o único tesouro que você leva da existência. Lembra dela? Aquela que te fazia ver o mundo com tanto otimismo e bom-humor…

Ah, agora ela parece um sonho distante, uma fantasia nos olhos de criança, não é mesmo?

O mundo fechou seus olhos de criança. Você mesmo fechou seus olhos de criança! Agora você vive cego, apesar de se julgar tão adulto, tão responsável, tão maduro.

Mas isso tudo é desculpa para sua própria incompetência. Isso tudo é desculpa pelas tristes desilusões que vocês viveu. É um disfarce, uma compensação.

A verdadeira maturidade surge da felicidade verdadeira. Daquele inabalável estado de consciência interior, que nada ou ninguém pode macular.

A verdadeira maturidade faz você ter a experiência e sabedoria do ancião, mas te dá rugas de sorriso e cabelos brancos de auto-realização.

Caso contrário, não é maturidade, mas sim, imaturidade disfarçada, infelicidade, rancor, traumas…

Pare um pouco! Fique quieto. Feche os olhos, volte, volte, volte… Abra novamente os olhos de criança. Eles estão aí dentro, caladinhos, tristonhos, esquecidos. Mas eles estão! Sem rancor ou ofensas pelo esquecimento. Eles estão, como a vontade de se auto-realizar. Como a vontade de ser você novamente. Com a vontade de novamente colorir o mundo, amar deliciosamente, cantar enlouquecidamente.

Com a vontade de novamente se abrir, bilhar e sorrir…

Apenas e verdadeiramente sorrir…

Abra os olhos, veja a luz…

Sinta as bênçãos da inocência
E o saber, do eterno não-saber,
Essa é toda magia, que sintetiza o viver!

Sim, o milagre está acontecendo,
Permita-se enxergar,
Permita-se, simplesmente, imaginar…

Perca-se em você,
Ache-se na presença Dele!
Seja novamente gotinha…
Mais uma vez estrelinha…
Renascida da poeira do passado.

O ontem te fez crescer.
O amanhã a Deus pertence.
Veja o presente com um olhar infantil…
Celebre! O Milagre finalmente acontece.

Abra os olhos, veja a luz…

Maturidade na infância,
Infância na velhice,
Alegria e sabedoria, o poeta disse.

Não mais gotinha que quer ser o verso.
Novamente estrelinha a cantar,
No céu do Universo!