Jesus de capa preta: crônica de um pregador iludido

Jesus de capa preta é também encontrado na internet com o título “Crônicas de um doutrinador”. Leia o texto e descobrirá porque alteramos a chamada.

Acompanhe!

Em um centro espírita tranquilo no interior do estado de São Paulo, um certo doutrinador fazia aquilo que melhor sabe fazer: pregar.

– Irmãos da seara bendita de Jesus, todos nós somos servos, ovelhas do grande pastor que é Nosso Senhor Jesus Cristo. Sigamos suas diretrizes do amor, da bondade e principalmente do perdão. Perdoemos aqueles que nos ofendem, perdoemos a todos, pois disso depende nosso crescimento espiritual – disse o pregador em tom emocionado a todos os presentes naquele dia.

– Lembrem-se do exemplo daquele que se fez simples, para dessa forma ser o maior. Cuidado com a vaidade, pois ela é um verdadeiro caminho para os abismos escuros e trevosos da consciência. Simplicidade irmãos! Façam-se pequenos para amanhã serem grandes em espírito.

– E não se esqueçam dos ataques baixos dos espíritos que caminham nas trevas. Reforma íntima, essa é a chave para nossa evolução espiritual. Somos todos pecadores perante a grandeza do Cristo. Mas, é do nosso calvário de lágrimas e trabalho, que amanhã ascenderemos ao Céu. Muito obrigado, façamos nossa oração final.

Bem, vocês devem ter percebido que o tal doutrinador parece ter o dom da palavra, sabe mesmo pregar o Evangelo espírita, não é mesmo?
Mas vamos continuar.

Voltando para sua casa encontrou um jovem negro andando pela rua. Fechou os vidros do carro. “Com esse tipo de gente é melhor não vacilar”, pensou fazendo uma careta.

Entrou em seu condomínio sem ao menos cumprimentar o porteiro, que por já o conhecer bem, foi logo chamando-o de senhor e entregando as correspondências do dia. Afinal, aquele nosso doutrinador era também o síndico do prédio. Não muito querido, diga-se de passagem, mas muito bom na arte da persuasão.

Chegando em casa logo foi se irritando, pois sua filha adolescente veio novamente com o assunto de viajar com o namorado, coisa que ele não admitia. E seu filho caçula que tinha encasquetado que gostaria de seguir a profissão de ator de teatro. Imagine seu filho no meio desses vagabundos!

“Devo ser um missionário com a responsabilidade de auxiliar a todos dessa casa”, pensava constantemente o pregador.

Pouco carinho dedicou à esposa. Afinal, ela já não era mais “aquelas coisas”. Foi para o quarto pensando o quão difícil era sua missão na Terra. Rezou um Pai Nosso decorado e a Prece de Cáritas só pela metade, pois ficou com uma certa “preguicinha”.

Tirou o terno apertado que usava para dar um “ar de respeito” na reunião. Desligou também o CD de Bach que tocava no quarto. “Isso é coisa que se toque em casa? Isso só toca nas colônias espirituais dos romances kardescistas, onde a música clássica ainda faz sucesso. Porcaria.”, pensou.

Ligou a TV, ficou vendo um desses programas de auditório onde mais um grupo de funk mostrava e “rebolava sua arte”. “Até que essa loira é gostosinha”, pensou.

E assim o doutrinador espírita dormiu. Sonhou com Jesus, mas ele não era só amor como podia se esperar. Estava de chicote na mão e usava uma capa preta.

Isso mesmo: era um Jesus de capa preta!

Despertou levemente do sono e pensou:

“Acho que ele quer que eu pegue mais pesado nas doutrinações! Amanhã vou falar sobre aqueles que vão às reuniões, mas em seu dia a dia nada praticam!”

E logo voltou a dormir tranquilamente.


Só para esclarecer, o Jesus de capa preta foi apenas o primeiro a surgir. Depois vieram Krishna, Buda, Maomé e muitos outros. Espera-se que o pregador tenha entendido o recado. Olhar para si mesmo é difícil, mas o tempo não é um problema para as divindades.