Vivemos em uma época em que quase nenhum momento do nosso dia tem silêncio. Se estamos no carro, ligamos o rádio ou colocamos um podcast para preencher o vazio.
Se estamos esperando alguém, pegamos o celular enquanto a pessoa não chega.
No elevador, no ônibus, na fila do mercado, durante uma caminhada ou até mesmo antes de dormir, existe sempre uma tela, uma música, uma mensagem, um vídeo ou alguma informação disputando nossa atenção.
Parece que temos medo do silêncio. Já não sabemos o que fazer com ele.
Rolamos a tela, verificamos as mensagens, assistimos a mais um vídeo. O problema é que, ao preencher todos esses pequenos espaços “vazios”, estamos eliminando os momentos em que nossa própria mente poderia trabalhar melhor.
A ideia é simples: seu silêncio é produtivo.
Quando não estamos acessando informações o tempo todo, nossa mente tem a oportunidade de revisitar experiências, combinar conhecimentos e estabelecer conexões novas.
E isso ajuda a entender uma situação muito comum: você tem um problema para resolver. Pensa nele durante horas. Pesquisa na internet, conversa com alguém, procura referências, lê opiniões e tenta encontrar uma resposta. Mesmo assim, nada parece funcionar.
Então você toma banho, sai para caminhar ou vai dirigir. E, de repente, a solução aparece.
Quantas vezes isso já aconteceu?
Talvez não seja coincidência. Quando diminuímos os estímulos externos, criamos espaço para que aquilo que já estava dentro de nós possa ser reorganizado.
Uma informação que aprendemos ontem pode encontrar uma experiência de anos atrás.
Uma lembrança pode se conectar a uma pergunta atual.
Uma ideia aparentemente sem importância pode se transformar na peça que faltava para solucionar um problema hoje.
É nesse ponto que podemos estabelecer uma bela relação com a espiritualidade da Umbanda.
Iemanjá, a Mãe da Criação, pode ser compreendida como uma inspiração para esse processo de acolhimento e gestação.
Antes de alguma coisa nascer, existe um tempo em que ela precisa ser formada.
Nem tudo acontece imediatamente.
Algumas ideias também precisam desse tempo.
Assim como as águas do mar acolhem, movimentam e transformam, podemos permitir que nossos pensamentos também se movimentem.
Nem sempre precisamos encontrar uma resposta imediatamente.
É melhor deixar uma questão repousar.
Isso não significa ficar parado diante dos problemas.
Significa confiar que nem todo trabalho precisa ser consciente, imediato e visível.
Podemos fazer uma pergunta e dar tempo para que a resposta amadureça.
E é aí que Oxóssi também pode nos inspirar.
Associado à busca do conhecimento, Oxóssi nos lembra que procurar é uma atitude fundamental.
Quem busca precisa observar.
Precisa prestar atenção.
Precisa saber onde mirar.
Precisa distinguir aquilo que realmente importa no meio de tantas informações.
Hoje temos acesso a uma quantidade enorme de conhecimento. Basta uma pesquisa para encontrarmos milhares de respostas.
Mas ter acesso à informação não significa necessariamente possuir conhecimento.
Conhecimento também exige reflexão.
Imagine, por exemplo, que você esteja tentando encontrar uma solução para um problema no trabalho.
Em vez de passar uma hora navegando por diferentes páginas e redes sociais, experimente fazer uma pergunta objetiva antes de começar a busca:
“O que exatamente preciso descobrir?”
Depois, procure as informações necessárias. Em seguida, pare e caminhe um pouco. Fique alguns minutos em silêncio.
Permita que aquilo que você acabou de aprender encontre espaço dentro de você.
Essa pode ser uma maneira simples de aproximar a busca de Oxóssi do silêncio que abre espaço para a criação inspirada por Iemanjá.
Não é preciso abandonar a tecnologia, viver isolado ou transformar o silêncio em uma obrigação.
A questão é outra: precisamos recuperar alguns pequenos espaços que foram ocupados por estímulos permanentes.
E podemos começar de maneira muito simples.
Que tal fazer um trajeto curto sem ouvir nada?
Que tal tomar um café sem olhar o celular?
Que tal caminhar durante dez ou quinze minutos observando o que acontece ao redor?
Que tal, diante de uma dificuldade, ficar alguns minutos em silêncio antes de procurar uma resposta na internet?
Que tal olhar para o céu, para uma árvore, para o movimento das pessoas ou simplesmente fechar os olhos e respirar?
No começo, pode parecer estranho (e vai ser, pode acreditar).
Talvez a mão procure pelo celular.
Talvez o silêncio pareça desconfortável.
Talvez surja a sensação de que estamos “perdendo tempo”.
Mas e se for justamente o contrário?
E se alguns desses minutos forem os melhores do nosso dia?
O mundo moderno nos ensinou a valorizar o tempo apenas quando estamos produzindo alguma coisa.
Mas aí é que está o pulo do gato: pensar também é uma forma de trabalho.
Refletir também é produzir.
Observar também é aprender.
Uma pessoa pode estar sentada “sem fazer nada” e, na sua mente, está reorganizando uma questão importante.
Já reparou que algumas das melhores ideias apareçam em momentos inesperados?
No banho.
Na caminhada.
Dirigindo.
Antes de dormir.
Olhando para o mar.
Em uma conversa tranquila.
Ou até quando estamos fazendo alguma atividade repetitiva que não exige toda a nossa atenção.
São espaços em que a mente finalmente encontra uma pequena liberdade.
Iemanjá nos lembra que o novo precisa de espaço para ser criado.
Oxóssi nos lembra toda busca verdadeira exige atenção, observação e disposição para aprender.
Entre a criação e a busca existe uma coisa fundamental: o silêncio.
Não o silêncio como ausência absoluta de pensamentos, mas como ausência de excessos.
Porque, quando tudo fala ao mesmo tempo, fica difícil ouvir aquilo que realmente importa.
Por isso, quando você estiver diante de um problema para o qual ainda não encontrou solução, experimente uma mudança simples: em vez de buscar imediatamente mais uma informação, permita-se ficar alguns minutos sem nenhuma.
Faça sua pergunta.
Respire.
Caminhe.
Observe.
Deixe a mente vagar.
Talvez a resposta não venha naquele momento. E tudo bem. Ela pode aparecer mais tarde, quando você estiver fazendo outra coisa.
O importante é ter criado o espaço para que ela pudesse surgir.
Vivemos em um mundo que nos oferece estímulos o tempo inteiro.
Talvez um dos maiores exercícios de liberdade seja escolher, de vez em quando, não receber nenhum.
Desligar a tela.
Diminuir o volume.
Parar de procurar.
E simplesmente estar presente.
As novas ideias que tanto procuramos não estão escondidas em algum lugar distante.
Elas já estão sendo construídas em silêncio dentro de nós, a partir de tudo aquilo que já vivemos e aprendemos.
Iemanjá nos inspira a acolher e deixar nascer.
Oxóssi nos inspira a buscar, observar e conhecer.
E o silêncio pode ser o espaço onde essas duas forças se encontram.
Da próxima vez que surgir um “tempo vazio”, experimente não preenchê-lo.
Talvez você descubra que ele nunca esteve vazio.
Talvez estivesse apenas esperando por você.
