Benzimento fora e dentro da Umbanda: usos e diferenças

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Benzimento é uma das coisas mais antigas que temos em religião.

Benzer singelamente significa tornar “Bento” ou “Santo”.

É uma prática comum em muitos lugares do mundo e não é exclusiva de uma única religião.
No Brasil ganhou força no período de colonização através da chegada dos imigrantes e, portanto, chegada da diversidade religiosa.

Para estes, a prática de benzimento era visível na figura de dois importantes papeis sociais: parteiros e benzedeiros.
As parteiras (na sua maioria mulheres) eram pessoas especializadas em partos.
Esta prática antecede a própria medicina e muitos partos são feitos junto a rezas, ou seja, enquanto faziam o parto, rezavam pela vida do feto e da mãe.

Já os benzedeiros (na sua maioria homens no início) tinham o dom de rezar e benzer removendo doenças, feitiçarias e problemas diversos através de suas próprias mãos e rezas.

Se pararmos para pensar, a prática do benzimento substituiu a lacuna existente pela falta de médicos, lideres religiosos, farmácias e outros avanços.

Parteiros e benzedeiros eram solicitados para problemas ligados a ordem espiritual.

O benzimento de raiz tem sua origem na prática de rezas, elaboração de garrafadas, proteção de lares, proteção comercial, abertura de caminhos, remoção de doenças (físicos, mentais e espirituais), etc.

O Benzimento não tem hora e nem local.
Diferente de algumas práticas umbandistas que necessitam operar com uma determinada fase da lua, um determinado tipo de vestimenta, de banho, de vela ou afim, o benzimento se destacou pela sua atuação simplista e generalista.

Para a prática de um benzimento, não faz diferença se é quaresma, finados, natal ou afim.
Há sempre um tipo de reza específico para cada situação.

Há sempre um tipo de reza para cada mistério, variando de benzedeiro para benzedeiro.

Neste sentido, o benzimento parece ser algo desprendido de dogmas ou influencias religiosas.
Mas muitas religiões adotaram sua prática ao longo dos tempos.

 

PASSOS DO BENZIMENTO

Há 3 grandes e importantes passos para um bom benzimento:

FÉ:
De nada adianta proferir ou ler lindas palavras se ela não vier do seu coração, da sua fé e devoção.
Fé é a capacidade de acreditar em coisas que nem sempre vemos, que nem sempre acompanham explicações científicas ou empíricas.
Fé é ver e sentir além da coisa vista.
É o elemento de se conectar com o divino.
A pessoa que procura um benzimento também deve ter fé, pois de nada adianta apenas o benzedor atuar com sua fé e um ateu ou descrente quebrar a egrégora magística que esteja se formando ali.

VERBO:
Um benzedor deve ter em seu arcabouço uma série de “verbos” chaves para proferir um bom benzimento.
Benzimento se faz com palavras: você dá e coloca poder e autoridade nelas.
Se suas palavras forem frágeis, incertas, incoerentes, desprendidas ou antagônicas, você acaba atrapalhando a energia do benzimento.
Sugestão de verbos: ABRIR, CAIR, ACABAR, AFETAR, AMPARAR, APAZIGUAR, BLOQUEAR, CANALIZAR, DESAMARRAR, DECRETAR, DESTRANCAR, DESVIAR, DILUIR, ENVIAR, FECHAR, GANHAR, HARMONIZAR, LACRAR, LEVANTAR, LUTAR, MOVIMENTAR, ORAR, BENZER, PORTAR, PROTEGER, RETIRAR, SOMAR, SEPARAR, TRANSFORMAR, ETC.

SENSO:
Senso, ética e profissionalismo.
As pessoas que procuram um benzimento são pessoas humanas em evolução e não cabe ao benzedeiro o ato de julgar, criminalizar, desfazer ou colocar energias negativas e pessoais sobre aquela vida que já se encontra em sofrimento.
O que chamamos de senso se aproxima do que Jesus disse que era um dos sentimentos mais importantes: o amor.

 

INSTRUMENTOS DO BENZIMENTO

A fé, o domínio sobre as palavras (verbos) e o senso sejam os 3 principais elementos do benzimento.
Mas ao visitarmos diferentes benzedeiras (os) observamos a diferença de materiais presentes neste ato: azeite de oliva, água, galho de arruda, galho de guiné, crucifixo, rosários, etc.

A escolha de elementos complementares varia de acordo com o mistério que aquele benzedor recebeu de seus antepassados.
Sua prática de benzer costuma passar de geração a geração.
Alguns benzedeiros desencarnam e levam consigo todo o conhecimento (por motivos que não nos cabe julgar), mas em sua grande maioria, deixam discípulos para continuar sua missão.

BENZIMENTO NA UMBANDA

Na Umbanda, ao observarmos a prática de benzimento através dos Guias, percebemos diferença de Linha para Linha.
Por exemplo, um Preto Velho benzendo um filho em um passe, ritual de fechamento de corpo ou afim usa em sua simplicidade os 3 elementos: Fé, Verbos e Senso.
Perceba quando for submetido a um benzimento.
Mesmo quem em sussurro ou voz baixa, o Preto Velho está realizando o ritual dentro deste tripé.
Arruda, água ou outra erva se faz necessário de acordo com cada mistério.

Já em um passe na Linha de Baianos, por exemplo, os Guias fazem movimentos com as mãos, estalam os dedos, batem no chão.
E junto a estes movimentos acompanham palavras (que podemos também chamar de benzimento).
Seja falada ou apenas mantida na cabeça do médium, tal Linha também parece reconhecer, respeitar e utilizar o tripé: Fé, Verbos e Senso.

Quando dizemos “verbo”, é importante deixar claro que não se limita às terminações em AR, ER, IR, etc.
Estamos traduzindo como verbo tudo que uma determinada palavra traz.
Por exemplo, vamos imaginar que o Guia esteja fazendo um benzimento de abre caminho (verbo Abrir e verbo Caminhar).
Mesmo que o Guia não saiba o que na língua portuguesa significa “Verbo” ele pode e certamente apresentará o domínio:

Eu ABRO teus caminhos em nome de Pai Oxalá!
Teus caminhos estão ABERTOS em nome de Ogum!
Eu invoco as forças da Bahia para que ABRAM seus caminhos!

Este foi só um exemplo do manejo do verbo “Abrir”.
O verbo e seu manejo dá potencializa o Guia em sua construção de frases e ordenações.
Os Guias não falam certo ou errado, muitos usam dialetos específicos a sua falange (índios, escravos, etc).
O que chamamos de verbo não é a exigência de um guia falar o português correto, mas o sentido de explorar o verbo em ações espiritualmente mandadas.
Chamamos de “Verbo” o domínio que ele tem em falar palavras que junto à fé e senso atuam na vida de uma pessoa.

O benzimento pode ser feito em qualquer Linha de Umbanda, inclusive em Erês (nas palavras de uma Criança) ou na Esquerda (nas palavras de um Exu).
O Guia pode fazê-lo de forma oral (voz baixa, média ou alta), pode fazer via pensamento (consciente ou inconsciente), pode fazer das mais variadas formas.

Em alguns Terreiros há a presença do “MÉDIUM DE SACUDIMENTO”, médium incorporado que limpa o consulente com ervas e o descarrega antes dele passar com o médium de consulta.

Este médium no papel de descarrego e limpeza pode fazer um benzimento ao mesmo tempo em que usa ervas para descarregar o visitante.

Onde e como o Guia vai usar o benzimento, somente ele poderá lhe dizer.
Afinal de contas, parte do ensinamento vem de livros, leitura, estudo e homem e a outra parte vem dos nossos Guias e mentores espirituais.
A junção destes dois mundos resulta no lindo processo que a Umbanda chama de “Incorporação”.

Uma das coisas que muda drasticamente entre o benzimento de um “Benzedor” (fora de uma religião) e um “Benzedor” na Umbanda são os dogmas.
Ou seja, a Umbanda leva muito em consideração seus preceitos, o branco, uma defumação, os banhos, as velas, etc.
Pode ser que, mesmo desincorporado, um médium necessite fazer um benzimento.
E então pode ser que ele escolha colocar um ou alguns destes itens em sua prática de benzimento.

Não há certo ou errado em matéria de  benzimento.

É preciso entender as diferenças, a doutrina e os fundamentos do “porquê” estamos fazendo determinada prática dentro dos rituais.

Texto produzido por Eduardo de Oxóssi do Blog do Baiano Juvenal

Imagens: Livia Mariah Fotografia e Tupã Óca do Caboclo 7 Pedreiras