Terrivelmente evangélico: exagero ou perigo?

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Terrivelmente evangélico.

Ao saudar os ministros presentes em sessão de homenagens na Câmara, o presidente Jair Bolsonaro afirmou que o advogado-Geral da União, André Luiz Mendonça, é “terrivelmente evangélico”.

O presidente já afirmou que o ministro-chefe da AGU é um dos cotados para assumir uma cadeira no Supremo Tribunal Federal.

Afinal, isso é preocupante, inofensivo ou só mais um dos exageros (entre muitos) do nosso atual presidente?

Terrivelmente evangélico, católico ou umbandista?

Sem dúvida, Bolsonaro terá o poder de indicar dois nomes ao Supremo Tribunal Federal.

Ou seja, um ao final de 2020, quando o ministro Celso de Mello se aposentará e outro, em 2021, quando sairá Marco Aurélio Mello.

Aliás, vale lembrar que a principal corte do país tem 11 ministros.

No entanto, qualquer nome indicado pelo presidente precisa ser sabatinado e aprovado (ou não) pelo Senado Federal.

Analogamente, Bolsonaro já demonstrou o interesse em indicar o atual ministro da Justiça Sérgio Moro ao STF.

Entretanto, este último, ao que sabemos, não é terrivelmente evangélico, nem católico, nem umbandista, etc.

Certamente as declarações do presidente causaram grande discussão em todo o país.

Afinal, a religião seguida por um jurista não é precondição para cargo algum.

A Constituição brasileira garante de forma inequívoca a separação entre Estado e Religião, garantindo ainda o livre exercício de culto a todos.

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Mas a pergunta persiste: terrivelmente evangélico, católico ou umbandista, o que isso muda (mudaria)?

Intolerância religiosa

O Brasil assiste a um aumento na escalada da violência e desrespeito às religiões afro-brasileiras nos últimos anos.

A saber, são diários os casos de vandalismo, coação e desrespeito aos Terreiros de Candomblé e Umbanda em todo o país.

Assim, embora em tese a religião de um ministro do STF não seja fundamental para escolha e desempenho de suas funções, a predileção por um candidato evangélico é ‘pôr mais lenha na fogueira’.

(Fogueira esta que já esquenta um caldeirão fervente de intolerância religiosa, divisão social e violência racial).

Portanto, só este fator já seria suficiente para tornar a questão preocupante.
Ou seja, passa longe de ser uma declaração inofensiva.

No entanto, os exageros do presidente já mostraram que serão o tom deste governo.

Por outro lado, o próprio porta-voz da Presidência da República, Otávio Rego Barros, classificou a declaração como “força de expressão”.

Além disso, ressaltou que a busca será por um nome que tenha “conhecimento técnico, respeito e confiabilidade”, sem mencionar nenhuma religião.

Uma outra visão

Com o intuito de fazer um exercício inverso (em que pese todos os problemas relacionados à intolerância que já citamos), vamos imaginar por um momento que o presidente do Brasil (este ou qualquer outro) diga que pretende indicar para o STF um ministro ‘terrivelmente umbandista’.

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Qual seria a reação dos umbandistas? Muitos ficariam felizes e muitos outros indiferentes, certo?

Assim, fica aos poucos mais evidente que a questão não é religiosa e sim política.

Com cerca de 50 milhões de fiéis, os evangélicos são uma força por si só, um manancial político a ser explorado.

Aliás, sua força política já se manifesta por todo o Brasil e até no Congresso Nacional, com mais de 70 deputados na chamada “bancada evangélica”.

Então, por este raciocínio, um presidente escolher agradar um determinado grupo social/religioso numeroso parece lógico do ponto de vista político.

A novidade fica por conta da falta de papas na língua.

Bolsonaro é falastrão, por vezes inconsequente, pouco polido e afeito ao jogo político de aparências e mesuras.

Dificilmente vestirá um cocar indígena ou será fotografado junto a representantes das religiões afro-brasileiras.

Assim, esta falta de tato (pensada ou deliberada) causa repúdio, controvérsias.

Mas traz também à luz discussões antes abafadas, escondidas…

Orgulhosamente umbandista

Você acredita realmente que existam apenas cerca de 500 mil umbandistas em todo o Brasil, conforme o Censo 2010 do IBGE?

Nós, do Umbanda Eu Curto, atingimos um público até 5 vezes maior do que isso mensalmente, o que dá a dimensão submensurada da força da Umbanda.

Quando questionados individualmente, preferimos nos denominar como ‘espíritas’ ou até mesmo ‘católicos não-praticantes’ num movimento de auto preconceito, seja perante o agente recenseador, seja em nossos diversos círculos sociais.

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Por outro lado, já viu algum evangélico esconder sua crença?

Por certo eles batem no peito com orgulho por sua religião!

Assim, a nossa falta de identificação como umbandistas é sim um problema.

Por consequência, nossa representatividade política tende a ser mínima.

Seja como for, nosso trabalho é muito grande.

Temos que nos unir contra a intolerância, fazer valer nossos direitos constitucionais e, ao mesmo tempo, afirmar a quem possa interessar: sou umbandista sim, com muito orgulho!

Precisamos crescer como grupo religioso numeroso (pois somos sim milhões!) e nos fazermos visíveis a todos.

Pois, ao nos colocarmos como orgulhosamente umbandistas, estaremos dando um passo enorme para diminuir a intolerância, a violência e o descaso.

E, quem sabe, caso tenhamos um juiz terrivelmente evangélico, nunca passe por sua cabeça tomar qualquer decisão que não seja baseada na Lei dos homens.

Nós, do Umbanda Eu Curto, continuaremos colaborando para o crescimento da Umbanda.

E você? Deixe sua opinião e comentários.

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