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Jovens na Umbanda: origens africanas e diversidade atraem adeptos

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Jovens na Umbanda, assim como em qualquer religião, são um indicativo de manutenção e crescimento.

No Brasil, o Candomblé e a Umbanda sempre foram partes indissociáveis da cultura e da identidade nacionais.
Mas uma série de fatores tem feito o interesse aumentar.
Eles vão desde a maior visibilidade alcançada pelo movimento negro nos últimos anos até a forma como as religiões de matriz africana lidam com a diversidade sexual.
E isso tem feito com que jovens antenados escolham frequentar (ou até mesmo fundar) Terreiros.

Moradora de Vila Isabel, a estudante de arquitetura Patrícia Figueiredo, de 26 anos, é um exemplo.
Ela pisou em um Centro de Umbanda pela primeira vez no ano retrasado, a convite de uma professora de sua namorada.
Apesar de ter frequentado a Igreja Católica na infância, ela conta que nunca havia se encontrado em nenhuma religião até então.
E isso por mais que sempre buscasse meios para se conectar com a sua própria fé.

“Na Umbanda, eu senti um acolhimento e um não julgamento por quem quer que eu fosse.
Comecei a aprender a ter uma visão diferente sobre as coisas e, com isso, iniciei uma reforma íntima.
Ver como aquele lugar estava me fazendo bem me levou a querer fazer parte daquela corrente.”

Seus pais tentaram a dissuadir de frequentar Terreiros.

“Quando comecei a frequentar, eles não gostaram da ideia.
Tentaram fazer a minha cabeça para eu deixar de ir.
Com o tempo, pararam.
O negro, para conhecer a sua identidade, precisa saber o que é o Candomblé, a Umbanda, da mesma forma que, quando pensamos na religiosidade branca, sabemos o que é um padre.”

 

YOUTUBERS RELIGIOSOS

Nessa busca por referências por parte dos jovens na Umbanda, muitos têm recorrido a um de seus espaços favoritos para qualquer coisa: o YouTube.

Por lá, são muitos os canais sobre religiões de matriz africana, que respondem a dúvidas como “Quem é meu Orixá?” e “O que é Curimba?”

Um deles é o do publicitário paulista Raphael Alves.
Com mais de 34 mil inscritos, seu canal é visto sobretudo por pessoas na faixa entre 22 e 38 anos.
E 70% do público é composto por mulheres.
Hoje dirigente de um Terreiro, Raphael conta que chegou a estudar o hinduísmo, declarar-se ateu e frequentar um Centro Espírita antes de seguir o caminho da Umbanda.

“A Umbanda me levou ao autoconhecimento.
É uma religião fundada no Rio de Janeiro, por isso, nela, você encontra tudo que tem dentro da cultura brasileira:
há as crianças, os negros e os orientais. Mas não há dogmas.”

Também umbandista, Mãe Bárbara de Iansã, de 32 anos, criou o canal “Hermeticamente aberto”.
Hoje conta com 29 mil inscritos, após perceber como atraiu a atenção depois de participar de um vídeo no canal de outro youtuber.

As pessoas vieram perguntar coisas principalmente por ver ali uma Mãe de Santo jovem, de cabelo colorido e alargador.
Isso faz com que os mais novos venham sem medo, para ter uma conversa de igual para igual.
É uma quebra o paradigma dogmático entre um líder religioso e um seguidor, e possibilita uma discussão.”

Ela afirma também que vê, num primeiro momento, uma curiosidade mais ligada ao sobrenatural do que à religiosidade.
E isso atrai jovens na Umbanda, assim como a canais do gênero.

“Eles assistem a muito filme de terror e acham que as coisas são fantásticas como na ficção.
Depois, se sentem apaixonados, porque damos um apoio na vida para eles.
A gente vive numa sociedade em que os adolescentes não têm limites.
A Umbanda faz com que eles tenham disciplina consigo mesmos.

Além do interesse pelo fantástico, há também uma crescente presença na cultura pop de elementos que fazem parte do sistema de crenças africanas.
No Grammy do ano passado, quando estava grávida, Beyoncé vestiu-se como Oxum, Orixá ligada à prosperidade e ao amor, para uma apresentação que já é antológica.

Ao longo de todo o seu mais recente disco, “Lemonade”, fãs também encontraram referências a outras entidades que fazem parte das práticas religiosas do povo iorubá e que, aqui no Brasil, deram origem ao Candomblé e à Umbanda.

Da mesma forma, o quadrinista baiano Hugo Canuto também escolheu incorporar à sua arte o sistema de crenças iorubá.
Tudo começou quando ele recriou uma famosa capa dos super-heróis da Marvel “Os vingadores” com Orixás no lugar.
Diante do sucesso, surgiu o projeto “Conto dos Orixás”.

“As duas primeiras artes do projeto sobrepunham os Orixás em relação aos super-heróis.
Isso como um chamado ao público para refletir: por que nossa cultura é demonizada e a estrangeira, valorizada?
Por que Thor é um herói e Xangô é considerado “demônio” por alguns?
Por que é mais fácil achar um livro de mitologia nórdica do que sobre os mitos iorubás?”

O autor explica que sua proposta é adaptar as lendas africanas para a estética das HQs.
E não transformar as entidades em super-heróis convencionais.

De outro lado, o Doutor em Antropologia Social e professor da Universidade Federal da Bahia (UFBA), Jocelio Teles dos Santos coordenou um mapeamento da universidade sobre os Terreiros de Salvador.
Segundo o pesquisador, a presença de jovens na Umbanda e Candomblé já era um fato no começo do século XX.
Mas a tendência passou a ser mais evidente com o aumento da tolerância religiosa no país e o fortalecimento dos movimentos sociais.

“Há uma maior presença jovem não só na liderança de Terreiros, mas como no que podemos chamar de “ativistas afrorreligiosos”.
A partir dos anos 1980 e 1990, a juventude chega com um discurso politizado, e o Candomblé passa a ser visto como um lugar de resistência.

Já na Umbanda, este discurso é mais recente”, analisa o professor.

Jovens na Umbanda são como a religião. Nova, curiosa e crescente.

 

Fonte: Ela, seção de O Globo (texto na íntegra para assinantes do Jornal)

Fotos: Marie Claire (Capa), Hugo Canuto (Contos dos Orixás) e Raphael Alves (Acervo Pessoal)