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Crianças, Caboclos e Pretos Velhos: muito além da Umbanda

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Crianças, Caboclos e Pretos Velhos estão na Umbanda desde o início da religião.

Suas presenças sempre foram muito marcantes.
Assim, é nítido quando observamos que Casas como a Tenda Espírita Nossa Senhora da Piedade e a Tenda Espírita Mirim têm nessas três linhas seus principais fundamentos espirituais.

Igualmente, Crianças, Caboclos e Pretos Velhos são Guias fortes, marcantes, contagiantes.
Até mesmo o público não-umbandista reconhece isso: quando se ouve dizer “Preto-Velho”, já se lembra de Umbanda…
Da mesma forma, os famosos doces de Cosme e Damião sempre mexem com o povo brasileiro (Crianças).

Aliás, no estudo das Linhas Espirituais da Umbanda, as Crianças, Caboclos e Pretos Velhos compõem o chamado “Triângulo da Direita”.

Além de serem Guias poderosos e muito adorados pelos umbandistas.

Notadamente, é importante observar que o Triângulo da Direita tem um significado muito maior e mais amplo do que o de Guias Espirituais.
Trata-se de energias presentes na natureza de maneira unânime: elas existem a todo momento, estão presentes em tudo e em todos, quer seja umbandista ou não.
Inegavelmente, elas são naturais e inerentes à vida e estão além de quaisquer mera significância.

Assim, a Criança é tudo o que se inicia, é tudo o que dá o primeiro passo.
É tudo o que amanhece, é tudo o que desperta, é tudo o que é criado, o que surge, é aquilo que brota.
Da mesma forma, é tudo o que começa a existir.

A Criança é a inocência, é a matéria bruta e pura ainda não lapidada.
Assim como é o início do dia e o início da noite, é a pureza mais sutil de algo, é a doçura, é a singeleza.
É a simplicidade natural de tudo, a raiz, a alegria da conquista, o olhar suave e sem críticas, é o início, e é para onde tudo deve retornar.

O Caboclo é o ápice de tudo, é o vigor, a virilidade da vida, a maturidade.
Ademais, é o despertado, é o nascido, é o existente.

É a matéria lapidada, o pico do dia e o pico da noite. É o equilíbrio.
Além disso, é o aprendizado de uma vitória ou de uma derrota, a seriedade dos momentos oportunos, é o olhar firme e atento.

O Preto Velho é o resultado da Criança e do Caboclo.
Assim, é o que culmina tudo, é o todo completo, o todo realizado, é o fim.
Mas não o fim dos fins, mas sim, o fim de um início, que invariavelmente levará a um novo início.

O Preto Velho é a estadia do final do dia, é o descanso após o trabalho.

Igualmente, é a colheita após o plantio, é o frescor após a chuva, é tudo o que se realiza e se completa. É todo ciclo fechado.

Crianças, Caboclos e Pretos Velhos assim são arquétipos, no sentido mais amplo e holístico possível.

Ainda mais, são potencialidades humanas e para além da humanidade, pois são fenômenos da natureza.

O Triângulo da Direita corresponde a todas as potencialidades da natureza, sendo impossível viver sem Ele.

Assim, o umbandista é aquele que consegue olhar com muita sacralidade para todo este complexo ao qual chamamos de natureza.
O umbandista é aquele capaz de olhar com emoção e adoração para toda esta beleza que se comunga formando a existência.

Dessa forma, quando o médium de Umbanda manifesta uma dessas Três Linhas, está manifestando aspectos da vida.
Está manifestando todo um conjunto muito lindo, que é a personificação do Divino.

Os Guias Espirituais Crianças, Caboclos e Pretos Velhos personificam o Todo, personificam Deus, Olorum, Zambi. Personificam o Tao.

Deste modo, essas Três Energias precisam estar em equilíbrio na vida de todos.
Um desequilíbrio nelas leva a não completude do todo.

Assim, uma tristeza profunda e prolongada não nos deixa caminhar: é a falta da energia do início, é a falta da alegria, é a falta da Criança.

Igualmente, um desgoverno, descontrole, compulsão, fanatismo, é uma falta de maturidade, seriedade e simplicidade frente ao mundo.
É a falta do Caboclo.

Uma pessoa indecisa, que nada conclui e nada completa, é a falta do Preto Velho.
Assim, novamente repito: as Três Energias estão na Umbanda e para muito além dela.

Como resultado, muitas doenças só surgem porque faltou uma ou mais dessas energias.
Todo sofrimento só surge porque há algo em falta, há uma potencialidade em falta.

Assim também, quando uma dessas energias está em excesso, ela impede a manifestação de outras e estagna o ser.

A tendência natural de cada uma dessas Energias é levar a outra, é atrair outra.

Dessa forma, a Criança atrai o Caboclo, que atrai o Preto Velho, que atrai a Criança.
Se uma está em excesso, esta atração acaba não funcionando e aí ocorre a parada na evolução.

Na natureza, é impossível que uma dessas energias fique em excesso por si própria.
Aliás, é o ser humano que ora desequilibra uma ou outra em si.
É o ser humano que ora impede que uma ou outra se manifeste.

Assim, só há um motivo para isso: a ideia de ser maior que o fluxo da vida, a ideia de conseguir vencer as marés, a ideia de conseguir vencer aquilo que não se é possível vencer.

Nós não somos maiores que a natureza. Nós apenas fazemos parte dela.

De maneira idêntica, toda ideia de superioridade, de controle e de dominação é ilusória, é movida pelo apego.
E o apego gera sofrimento. Ele estagna o fluxo natural de algo. Ele paralisa e não deixa evoluir.

Assim, Crianças, Caboclos e Pretos Velhos são momentos da Energia Primordial que constrói a tudo e a todos.

Esta é a Umbanda, a contemplação da natureza como ela é.
A adoração da existência.

Por fim, para contemplar e adorar a existência, é preciso torna-la visível.
É preciso expressá-la, e assim fazem as Crianças, Caboclos e Pretos Velhos.

Texto enviado por Romes Bittencourt Nogueira de Sousa (Romes Sousa).
Romes é vice-presidente da Casa da Caridade Aprendizes do Amor (Trindade-GO), onde leciona as frentes de Educação Mediúnica, Cultura e Arquétipos da Umbanda no Curso Livre de Teologia de Umbanda. E-mail: romesbittencourtsousa@gmail.com

Foto principal: Davi Nunes/Reprodução