Do cambone ao incorporante: desenvolvimento

Do cambone ao incorporante, o desenvolvimento na Umbanda tem características próprias.

Acompanhe a história.

Os atabaques começaram a tocar.

Então os atabaqueiros entoam os pontos de força e o cheiro de defumação rolou no ar. Assistência cheia, obsessores perturbados, espíritos de luz abençoados e mais uma Gira ia começar.

Do cambone ao incorporante, passando pela assistência, todos juntos na mesma fé. Assim, todos de branco, guia de Oxalá na mão. Pegou uma vela, ajoelhou e fez uma oração.

Em seguida, a dirigente incorporou o chefe da falange dos Caboclos, ele bradou e bateu nos peitos. Riscou o ponto, acendeu a vela, baforou o charuto e bebeu seu Aluá.

Então outros médiuns começaram a incorporar, outros Caboclos e Caboclas vieram para bradar. Assim os Cambones foram chamando a assistência e, pouco a pouco, chegaram até as entidades para curar seus problemas.

O médium novato acendeu a vela, pediu bençãos aos Orixás e entidades do Terreiro e ficou observando atentamente. Cada um do seu jeito, cada um com sua força, e todos foram sendo atendidos até sair com o semblante mais sereno.

Então Edson começou a passar mal. As pernas formigaram e suas mãos suaram.

— Okêeeeeeeeee Arô! Sou eu? Incorporei? – pensou.
— Salve senhor Caboclo. Seja bem-vindo! Precisa de algo? – disse o cambone.
— Salve! Êsse Caboclo precisa de água.
— Tudo bem senhor Caboclo, vou pegar pra você!
— Que Tupã abençoe oxê.

Assim o Caboclo ficou ali um tempo. Usou a água para cruzar o colar de contas e jogar atrás da nuca.

— Êsse Caboclo vai subi. Êsse Caboclo agradece ajuda. Okêeeeeeeee!

O Caboclo subiu, o médium voltou um pouco zonzo. Um cambone se aproxima e pergunta:

— Como você está se sentindo?
— Nossa, estou um pouco com tontura, mas me sinto leve e feliz.
— Você incorporou o seu Caboclo. Você sabe o nome dele?
— É a primeira vez que incorporo.

Eu não sabia que tinha essa mediunidade. Antes de ir embora ele falou um nome, mas não tenho certeza.

— E qual nome ele disse?
— Caboclo Pena Branca.
— Parabéns meu irmão, é isso mesmo. Eu não incorporo. mas eu vejo espiritualmente. E ele tem um penacho branco muito bonito, bem parecido com outros Caboclos Pena Branca que já avistei.
— Obrigado meu irmão, não sei direito o que aconteceu, só acendi a vela e fiquei observando e do nada ele veio.
— Eu estava observando você! É assim mesmo. Depois fale com a dirigente da casa, tudo bem? O irmão Alfredo, que faz parte da corrente, me disse que foi solicitado para que viesse de branco hoje e foi orientado que trouxesse uma vela branca e uma guia, não é?!

Mas para participar do desenvolvimento mediúnico preciso falar com a dirigente.

— Tudo bem irmão, obrigado. Vou esperar acabar a Gira e falo com ela. Agradecido!

E a Gira correu maravilhosamente bem.

Do cambone ao incorporante, passando pela assistência, enfim, toda a ritualística seguiu normalmente.

Todas as obsessões feitas com afinco, as pessoas foram orientadas e aos poucos os médiuns foram voltando do transe. Então a dirigente chamou todos para a reflexão sobre a importância da caridade e ajuda ao próximo.

Após seu discurso que comoveu a todos, fez a oração de encerramento que emocionou ainda mais a todos. O médium, que estava ansioso pelas orientações para o seu desenvolvimento, esperou o melhor momento e foi até a dirigente.

— Oi, sou o Edson, tudo bem?
— Olá Edson, tudo ótimo. Gostou da Gira de hoje?
— Eu gostei, na verdade… eu amei.

Um dos médiuns da corrente, na Gira passada, pediu que eu viesse de branco, trouxesse uma vela e guias brancas, e ficasse do lado de dentro.

— Quem foi que pediu? – perguntou.
— Aquele ali – apontou. Não sei o nome.
— Ah tudo bem, ele é um médium experiente. Mas me diga, no que posso ajudar?

Então, com os olhos cheio de lágrimas e devidamente emocionado, disse:

— O Cambone pediu que falasse com a senhora. Porque eu incorporei o Caboclo hoje e nem sabia que isso aconteceria. E ele falou pra que pedir a permissão para entrar no desenvolvimento.

— Hmmm… Entendi. Você pode entrar no desenvolvimento sim.
— Ah que legal, nossa… não sei nem o que dizer, o que senti hoje nunca tinha sentido na vida.
— Fico feliz por você Edson, é só passar na secretaria, fazer sua inscrição e pagar um mês adiantado.
— Pagar? Quanto? Desculpe a pergunta, é que estou desempregado e faço alguns bicos. Então preciso ver e qualquer coisa tento pegar emprestado.
— Faz isso, se informe na secretaria está bem?

Ele saiu do Terreiro cabisbaixo, triste e com dor no coração. Não tinha condições financeiras, mal tinha o dinheiro da passagem. Infelizmente vai ter que esperar para sentir novamente toda a emoção, energia e felicidade do contato com o mundo espiritual. Infelizmente…

Infelizmente vejo muitas pessoas com um potencial imenso e um coração sereno que não podem se desenvolver mediunicamente por fatores materiais ($).

São irmãos e irmãs que tem Terreiro e fazem desenvolvimento mediúnico gratuito (desenvolvimento mesmo, não jogar a pessoa no canto), divulguem isso para agregar aos irmãos que não podem pagar para fazer.

Observação importante: respeito quem tem um curso de desenvolvimento pago, estou apenas mostrando meu ponto de vista. Sem stress, sem crise rsrs…

A prática da mediunidade tem que ser um direito a todos, do cambone ao incorporante.

A Umbanda agrega e não exclui ninguém. Do cambone ao incorporante, consulentes, enfim, que todos possamos agregar nossos irmãos de baixa renda, pois Umbanda é pé no chão.