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Umbanda e Espiritismo: uma diferença fundamental

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Umbanda e Espiritismo apresentam muitas semelhanças entre si.

No entanto, o trecho de um livro do professor Reginaldo Prandi (USP) põe foco nas diferenças que nem sempre notamos.

Confira!

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A Umbanda rompeu de certo modo com a concepção kardecista de mundo.

O Kardecismo, ensina que esta é mais uma terra de sofrimentos onde devemos ajustar contas por atos de nossas vidas anteriores.

Não para a Umbanda, que herdou do Candomblé a ideia de a experiência neste mundo implicar a obrigação de gozá-lo, a ideia de a realização do homem se expressar por meio da conquista da felicidade terrena, questionando assim a noção kardecista da evolução kármica (o que somos hoje depende de como agimos numa vida passada), que enfatiza a culpa e o conformismo.

Com a prática da oferenda ritual, que propicia os deuses a nosso favor, a Umbanda reafirma a possibilidade de mudança da ordem, de intervenção no mundo de acordo com interesses e vontades individuais.

É necessário que cada um procure a sua realização plena.

Mesmo porque, o mundo com o qual nos deparamos valoriza o individualismo, a criatividade, a expansão da capacidade de imaginação, a importância de “subir na vida”.

Este pormenor é essencial!

Por essa forma de ver o mundo, a Umbanda situa-se como uma religião que incentiva a mobilidade social.

Entretanto, mais importante do que isso é o fato de que essa mobilidade está aberta a todos!

E sem nenhuma exceção: pobres de todas as origens, brancos, pardos, negros, árabes…

O status social não está mais impresso na origem familiar, muito menos na origem racial.

Assim, trata-se agora, para cada um, de mudar o mundo a seu favor.

Aliás, essa religião é capaz de oferecer um instrumento a mais para isso: a manipulação do mundo pela via ritual.

Com a Umbanda, as cidades grandes do Sudeste, depois todas as outras, conheceram o despacho a Exu, a oferenda depositada nas encruzilhadas.

Assim, até o final dos anos 1950, a história das religiões afro-brasileiras é uma história de apagamento de características de origem africana e sistemático ajustamento à cultura nacional de preponderância europeia, que é branca.

Mas, no processo de branqueamento, muitas práticas rituais e concepções religiosas negras impuseram-se na sociedade branca.

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Umbanda e Espiritismo, assim, possuem semelhanças, mas suas diferenças também são muito evidentes.

Fonte: PRANDI, Reginaldo. “Referências sociais das Religiões Afro-brasileiras: Sincretismo, Branqueamento, Africanização”. Horizontes Antropológicos, Porto Alegre, ano 4, Nº 8, p. 151-167 e jun. 1998, pp. 156-157.

Foto: Sweet Ice Cream Photography/Unsplash