Médium X-MEN: com grandes poderes, grandes responsabilidades

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Médium X-MEN? Só pode ser brincadeira…

Para entender o conteúdo do texto, farei um breve relato de meu início na Umbanda.

Fui na minha primeira Gira de Umbanda apenas para acompanhar uma pessoa que ‘trabalhava com isso’.
Então, como eu estava de férias da faculdade, resolvi ir em uma Gira e ver o que era ‘isso’.
Na primeira sessão foi tranquilo, normal e acabei até gostando.
Já na segunda sessão, era uma Gira que chamavam de Esquerda; gostei do clima e tudo mais.
Porém, acabou que incorporei um Exu (o mesmo que trabalha ao meu lado hoje) e, após isso, eu decidi que queria ser umbandista e assim começou minha jornada.

Por eu ter incorporado de maneira firme em minha segunda vez na Umbanda eu já me achava uma pessoa diferente e especial por isso.

Eu já sabia o nome deste Guia espiritual, então isso me fez achar que eu era melhor que as pessoas que já trabalhavam lá há anos e nunca tinham incorporado e até mesmo alguns não sabiam o nome de seus Guias ou não tinham muita firmeza na incorporação.

Aí então eu me tornei o Médium X-MEN: eu tinha superpoderes, era melhor que os outros irmãos, meus Guias eram os melhores!
Eu queria comprar um chapéu de cangaceiro para o Baiano, queria comprar a capa para Exu, queria comprar o chapéu do Sr. Zé Pelintra…
E fiz tudo isso!
Afinal, eu estava pronto, incorporei, sabia os nomes, fumava charuto, cigarro de palha, fui autorizado a consumir (incorporado) bebidas alcoólicas (porque lá isso não era para todos).

E olha que eu passava para as pessoas humildades que se consultavam que era preciso ter gratidão e sinceridade.
Mas, por dentro, eu estava cheio de orgulho, de autoestima, de ‘poder’ e julgamento para com os outros que eu não considerava “evoluídos” como eu.

Sim, eu tinha superpoderes eu era o escolhido, o Médium X-MEN.
E com certeza eu tinha todo o conhecimento e firmeza de abrir minha própria Casa!
E ela seria melhor que aquela que me iniciou e se abriu para eu entrar pela primeira vez.
Afinal, eu estava coberto com o manto negro da razão…

Resolvi então estudar.
Isso porque me disseram que esse era o caminho.
E a Casa que eu frequentava não dava muito valor para o estudo ou não incentivava.

Resolvi virar um MAGO, então eu iria ser o MAGO MÉDIUM X-MEN!

Fiz cursos de magia e com isso eu já me sentia infinitamente superior aos outros irmãos.
Estes, apenas chegavam, atendiam as pessoas e iam embora com sensação de trabalho realizado.

Mas eu não: era o incansável estudioso da Umbanda e da Magia Divina!
Eu sabia todos os tronos, cores, nomes, Orixás, suas lendas, li livros (não pelo prazer de aprendizado), mas sim para dizer que eu tinha conhecimento e sabia muito sobre a Umbanda.
Afinal, eu era o MAGO MÉDIUM X-MEN e tinha que fazer por valer.

Com isso eu acabava desprezando os irmãos que estavam iniciando e lutando com suas dificuldades internas (mas eu nunca tinha passado por isso).

E sabe por que? Porque eu era o MAGO MÉDIUM X-MEN!

Mesmo com tudo isso eu tinha o respeito devido com a Casa, com as pessoas e com a espiritualidade.
Isso porque eu fazia tudo correto (como não fazer correto se eu era o MEDIUM X-MEN?)

Eu não fazia nada do que a Casa autorizava, não desrespeitava as pessoas, ficava no meu lugar e só intervia ou fazia algo quando eu era chamado.
Isso fisicamente falando, porque o meu interior observava o trabalho alheio e julgava a todo momento.

Eu ficava achando que meu Guia faria diferente ou meu Guia JAMAIS faria um absurdo deste ou daquele.

Eu achava que a maneira como a Gira era tocada naquela Casa estava errada: o médium “X” não tinha condição de estar atendendo um consulente, tudo era um absurdo!
E sabe por que?
Porque eu era O MASTER MAGO MÉDIUM X-MEN!

Sim, eu já tinha evoluído nesse tempo de trabalho, mesmo quieto no meu canto enquanto os Guias estalavam os dedos.
Em meu espírito achava que o meu estalava certo e o dos outros estalavam errado.

EU CONHECIA a maneira correta de fazer oferenda, de fazer uma mandala, de fazer um ponto riscado.
Eu já colecionava alguns graus de magia, eu já tinha no currículo espiritual alguns cursos e palestras.
Eu já tinha uma bagagem de visitas a Terreiros alheios e grandes, muito maior do que aquele que eu trabalhava.
Eu já conhecia pessoas ‘famosas’ no meio umbandista.

Sim, eu era o MASTER MAGO MÉDIUM X-MEN que teve seu início rápido como a flecha de um Caboclo, firme como os soldados de OGUM, justo e racional como Xangô, amoroso e doce como Oxum.

Então, eu era o MELHOR MÉDIUM QUE AQUELA CASA JÁ TEVE!
Eu era dedicado (não faltava em nenhuma sessão), eu era esperto, eu respeitava as regras.
Eu estudava (até além do que pediam), eu estava em todos eventos quer o Terreiro participasse ou não, porque eu era o MAGNÍFICO MASTER MAGO MÉDIUM X-MEN…

Ei, e você?
Também é um MÉDIUM X-MEN, dono dos poderes, o especial, o dono da razão, o conhecedor de todos os nomes, pontos, oferendas e etc?
Não é!? Mas não é possível!

Você começou ontem a incorporar e já sabe o nome dos seus Guias; os seus Guias já te deram 300 missões e você já sabe fazer tudo correto.

Como então não é um MÉDIUM X-MEN, detentor dos mistérios e poderes que a espiritualidade lhe forneceu do dia pra noite?

Assustador o relato? Será? Você não se identificou com nada?

Cabe a todos os médiuns uma reflexão de como querem encarar a espiritualidade e como encarar seus dons.

O desenvolvimento é pessoal e intransferível não o tornando melhor nem pior.
Todos os Guias tem o mesmo poder perante a divindade que os rege; o seu não é melhor que o do outro.

A SUA VERDADE não se sobrepõe à verdade do outro e, principalmente, sua missão não é mais importante que a do outro.

Não se deixe enganar pela rapidez na qual se tornou “Médium de Umbanda”.
Pare e pense o que te levou até aquele caminho.

Os Guias espirituais não estão aqui para provar nada para ninguém muito menos concorrer com outros Guias ou até mesmo com Templos de Umbanda.

Não se deixe levar pelo ego, pela vaidade e pelo orgulho!

Entenda que estamos aqui para sermos felizes e não para sermos melhores para ninguém: apenas melhores para nós mesmos!

Jogue fora o manto da razão.

Olhe o outro com carinho e amor e não enfie goela abaixo seus conhecimentos forçando a aceitar e acreditar na mesma maneira que você acredita.

Não importa o tempo da caminhada nem a velocidade na qual você foi ou acha que foi desenvolvido: estamos em um eterno aprendizado e, entenda, tudo é um aprendizado (tudo mesmo!)

Reprodução de texto escrito por Magnus Quandt