História da Umbanda: nunca foi simples estabelecer a religião

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História da Umbanda é marcada por negros, brancos, mestiços, etc. A cor não importa.

Uma das religiosidades de matriz africana que cresceram bastante nos últimos anos no Brasil foi a Umbanda.
Trata-se de um tipo de religiosidade bastante complexa, que não apresenta uma constância em suas práticas.
Pelo contrário: é marcada pela variação e diversidade de crenças e ritos de um Terreiro para outro.

Para explicar esta inconstância presente nesta religião, devemos nos voltar para a história da Umbanda.
Devemos observar o modo como esta religião de matriz africana foi-se constituindo ao longo dos anos até hoje.

Segundo alguns autores, a Umbanda teria nascido no início do século XX, mais precisamente em 15 de novembro de 1908.
Nasceu num centro espírita de Niterói (RJ), por iniciativa de um jovem carioca pertencente a uma família de classe média, de nome Zélio de Moraes.
Conta a história da Umbanda que, em sessão espírita na Federação Espírita de Niterói, Zélio teria recebido o espírito de um Caboclo (das 7 Encruzilhadas), que revelara a ele uma nova religião.
No outro dia, na casa de Zélio, iniciavam-se os trabalhos da Umbanda.

O nome dado à casa de orações foi Tenda Nossa Senhora da Piedade.
Lá acorreram alguns médiuns kardecistas que haviam sido escorraçados dos centros kardecistas por terem incorporado Caboclos, Pretos Velhos e Crianças, entidades não aceitas nos centros kardecistas.

Esta história da Umbanda é defendida por vários autores e reproduzida em vários livros.
Alguns são mais detalhistas, outros apenas citam o evento.
Mas esta história é, na verdade, um mito fundador da Umbanda, que ganhará força após a década de 1940, no Rio de Janeiro, com a constituição do I Congresso Brasileiro de Umbanda.
Note-se que, neste mito, aparecem alguns elementos interessantes, que visam afastar a Umbanda de maiores influências da cultura negra africana.
Nesse sentido, criar uma identidade nacional desvinculada da figura do negro era essencial.
Autores como Silvio Romero e Nina Rodrigues reforçam estas idéias em suas obras, colocando a culpa pelos atrasos brasileiros na presença do negro em terras brasileiras.

Este quadro vai acabar influenciando a Umbanda, que pretende ser uma religião brasileira, portanto imbuída destas teorias nacionalistas que pretendem excluir o negro do processo.

Esta foi a principal discussão do Primeiro Congresso de Umbanda realizado no Rio de Janeiro em 1941.
A preocupação dos participantes era justamente a de reafirmar a origem mítica da Umbanda.
E, assim, ocultando qualquer relação sua com a África, como a Macumba Carioca.

Então este mito de fundação ganha forças e passa a figurar nas obras de diversos intelectuais como o nascimento oficial da Umbanda.

Mas o processo que levou à constituição da Umbanda é muito mais longo e antigo do que parece.
Ele se inicia alguns anos antes, quando da chegada dos primeiros navios negreiros ao Brasil.
E está intimamente relacionado com a presença do negro africano por aqui, com o nascimento do Candomblé e com a figura do feiticeiro negro.

Voltando um pouco no tempo, perceberemos que não foi só pelos candomblés que as práticas religiosas de origem africana se perpetuaram.

Fora dos Terreiros, em casas simples e barracões, vários líderes religiosos conhecidos como ‘feiticeiros negros’ prestavam diversos serviços à população local, concorrendo com a Igreja Católica e até mesmo com a medicina oficial.

Alguns destes ‘feiticeiros’ ganharam notoriedade.

E, quando isto ocorria, o governo imperial tratava logo de dar-lhes um sumiço.
Eram condenados à prisão sob diversas acusações, como estelionato, prática ilegal da medicina.
Ou, simplesmente, acusados de praticar feitiçaria e curandeirismo, considerados crimes na época.

Nestas casas de ‘feiticeiros’, diversas práticas se misturavam e se aglutinavam.
Não havia códigos rígidos de conduta, nem ritualísticos.
As práticas seguiam única e exclusivamente as ordens de seu líder religioso, que podia se denominar Pai de Santo, como no Candomblé.
Misturavam crenças de origem africanas, como os Orixás e Eguns, com práticas xamânicas indígenas, santos católicos, realizavam benzimentos, receitavam chás e ervas com efeito de cura, entre outros.

O termo sincretismo foi bastante utilizado por alguns autores que estudaram a história da Umbanda para descrever esta mistura.

Assim, este quadro cultural efervescente daria origem a uma variedade enorme de práticas.
E isso ocorreu com crenças e ritos que se utilizavam de elementos africanos, católicos e/ou indígenas, em diferentes graus.

Todo este quadro religioso de práticas mágicas, baseados nas figuras dos feiticeiros negros, é chamado por Roger Bastide de macumba.

LEIA AQUI O TEXTO NA ÍNTEGRA

Foto: Pai Zélio de Moraes de casaco escuro, na cabeceira da mesa. Década de 1960