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Contos de Terreiro: nem tudo queima!

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Contos de Terreiro é um nome genérico para um conjunto de histórias dessas que acontecem a todo momento na Umbanda.

Com certeza você também conhece alguns!

***

A noite estava perfeita para a Gira da Esquerda, onde os Exus e Pombagiras iriam se manifestar.
Assim, como era de costume naquele Terreiro, essas sessões eram fechadas, apenas para os trabalhadores e convidados.

Aliás, tudo estava pronto.
A toalha vermelha estava estendida diante do Congá, as flores estavam colocadas em seus devidos lugares, os charutos, cigarrilhas, perfumes e o padê – farinha com dendê – estavam disponíveis para as entidades que viriam a se manifestar.

Então, há uma prece inicial, evocando as forças do Criador e das divindades que lhe auxiliam, seguido de cânticos saudando os Exus e Pombagiras:

“Seu Tranca-Ruas me cobre com sua capa,

A sua Capa é um manto de caridade,

sua capa cobre tudo, só não cobre a falsidade.”

Dessa forma, enquanto todos se harmonizam em um só coro, os atabaques continuam a retumbar.
Ao passo que a dirigente do Terreiro pede então para que todos comecem a assobiar, enquanto a curimba continua a chamar o “povo da tronqueira”.

“De vermelho e preto vestindo,

a noite um mistério traz.

De colar de conchas,

De brincos dourados

a promessa faz.”

Então começa-se a ouvir gostosas gargalhadas, graves e agudas.
Ao mesmo tempo os médiuns vão se curvando e suas mãos tomando a forma de garras.
Igualmente, as médiuns, com um sorriso faceiro no rosto se põem a dançar.

Assim todos se cumprimentam e se põem a trabalhar:

“Boa noite para quem é de boa noite!”

Em seguida, um dos Exus a se manifestar chama um cambone, pega seu charuto de uma marca cubana, olha pra ele e diz:

– Mas esse burro não entende nada de fumaça mesmo! Onde tá o cortador de charuto?

Então o cambone procura em tudo, mas o Exu impaciente diz:

– Deixe. Ele não tem. Não sabia sequer que precisava de um pra cortar esse charuto! Deixe comigo!

Então morde uma das extremidades do charuto, tirando um naco de folhas secas de tabaco, criando assim seu próprio corte.
Tão preciso quanto feito com um cortador.

O cambone se aproxima com três nomes escritos em papel, cada um em um pedaço separado.
Então entrega nas mãos do Exu e lhe informa:

– Pai, salve suas forças!
Esses nomes foram pedidos para serem entregues pro senhor.
Disseram que estão cheio de macumba e com a vida empacada.
Que fizeram demandas contra eles.

Por consequência, o Exu olha de canto de olho, com uma cara de poucos amigos, e pega um pequeno recipiente feito de latão.
Então pede o fumo picado, que se usa pra charuto.
Enche a vasilha de latão com fumo, pega um pouco de álcool misturado com arruda, guiné e alecrim e despeja por sobre o fumo.
Assim, um a um ele vai pegando os nomes e olhando.
Ao mesmo tempo, enrola os mesmos como pavios e os enfia dentro do fumo com uma parte para fora.
Quando pega o terceiro nome diz:

– Esse aqui disse que tem demanda contra ele? Tem não! Mas vou colocar aqui de qualquer jeito e tu vai ver com os olhos que tem que nada tem contra ele! – disse ao cambone.

Assim, enrola como os demais e coloca no meio do fumo, embebedando os papéis um pouco mais com o preparo de álcool e ervas.
Então taca fogo e acende uma bela pira!

O Exu pega no ombro do consulente e vai correr a Gira dele.
Passa por alguns cumprimentando, a outros ignorando, mas a todos dando o axé do seu jeito.

Passado um tempo ele pede para o cambone ir até o fogo que já havia se extinguido.
Então o cambone olha atônito e percebe que um dos papéis – apesar de estar junto, embebido de álcool e ter sido beijado pelo fogo – estava intacto.

O Exu olha com um sorriso no canto do lábio e diz:

– Abra e leia o nome!

Então o cambone, ao abrir, se choca mais ainda!
Pois era o nome exato da pessoa que nada tinha contra ela, conforme o Exu havia dito.

– Quando não há, não há! E a prova tá aí pra quem quiser ver.
Isso é magia, isso é Umbanda! – disse o Exu, finalizando com uma gargalhada que pode ser ouvida até hoje quando fecho os olhos e relembro a cena.

Laroyê Exu! Exu Omodjubá!

“Deu meia noite em ponto e o galo já cantou

Deu meia noite em ponto e o galo já cantou

Cantou pra anunciar que seu Tiriri Chegou,

Cantou pra anunciar que seu Tiriri Chegou.”

***

E você?

Conhece mais contos de Terreiro? Conte pra nós!

Texto: Douglas Rainho – Perdido em Pensamentos

Foto: Lee Phillips/Pexels